05/07/2009

"Beija-flor sou tua rosa, hei de amar-te até morrer"







Você já esteve em sua casa e de repente um beija-flor adentrou pela janela, deu uma voltinha no ambiente e quando ele saiu você ficou repleto de felicidade?

Hoje aconteceu isso aqui em casa. A campainha tocou e quando eu abri, entrou enchendo o ambiente de luz João, meu afilhado, e meu cumpadre.

Eu podia esperar muita coisa boa, até porque eu sempre espero coisas boas, mas essa visita superou tudo que minha vã consciência pudesse almejar para uma deliciosa manhã de domingo.

Ele chegou, cheio de novidades e pediu-me para explicar como usar o MSN, falou dos livros que estava lendo, jogou transamerica com o padrinho, que depois se enfretaram numa eletrizante partida de Guitar Hero's, onde os dois eram o punk. Rimos a valer. Mas como um beija-flor que entra na sua casa com sua beleza infinita apenas por uns instantes, ele partiu e foi beijar outras flores, que como eu estavam saudosas dele, também.

Obrigada pela visita, lindo beija-flor.

Para João,
amor primeiro.

04/07/2009

A Coleira.


Apresentação

Devo dizer que este não será um texto fácil. Portanto se você quiser deixá-lo de ler aqui, eu não só entendo, como recomendo. Este texto não vai te deixar feliz, nem tão pouco pensando em coisas boas.

Prólogo

Eu já falei de Megabyte aqui. Da importância dela nas nossas vidas. De quanto fomos felizes por ela ter dividido sua breve existência conosco. Vou contar mais uma coisa sobre ela. Desde sempre Mega teve em seu lindo pescoço uma coleira, tipo corrente, onde havia uma placa com seu nome e nossos telefones, caso, Deus me livre, ela se perdesse. Ela a usava diariamente, só a tirava para tomar banho e quando acabávamos de a enxugar balançávamos a corrente e ela vinha para colocarmos novamente. Era engraçado, parecia que sem a coleira ela se sentia nua. Acho que ela também tinha medo de se perder da gente.

É hora de você desistir...

Sábado passado fui deixar Flávio no Recife Antigo, por volta das 7 horas da manhã. Resolvi voltar pela Avenida Sul, coisa que nunca faço. No final da via há uma ponte que nos liga ao bairro de Afogados. Não havia o tráfego intenso, mas havia carros o suficiente para que eu não parasse imediatamente. De repente olhei para o lado direito da ponte e vi um homem, na casa dos 20 anos vestido de bermuda, tênis e camisa de malha.Segurava por debaixo das patas dianteiras um cachorro amarelo de costas para si, um vira-lata desses fortinhos (estilo pitt bull), do outro lado do parapeito da ponte. Eu testemunhei exatamente quando ele o soltou. O mundo parou. Eu não conseguia crer naquilo que meus olhos estavam vendo e por um momento invejei Édipo que arrancou os seus. - Eu disse para você desistir - . Ele deu uns passos e olhou para o rio, talvez para certificar-se de que a sua ação tenha sido prodigiosa e então naqueles milésimos de segundo, que ficaram gravados a ferro e fogo em minhas retinas, eu vi o pior, ele guardou a coleira do cão no bolso. Ele atirou o cão no rio, mas guardou sua coleira. Meu Deus, tem algo errado, muito errado.

Minha cabeça processava tudo tão depressa que não sei como não subi a calçada. O cachorro, o rio, a coleira. Imediatamente uma enxurrada de lembranças invadiu-me: Mega e sua banheirinha rosa, sempre com água morna e de sua correntinha com placa que ela ostentava com tanto orgulho. Pensei no pobre do cão, nas suas patas traseiras patinando no ar, na sua queda livre, no seu mergulho. Não sei se ele sobreviveu. Eu com certeza, naquele momento, morri um pouco mais do que o que habitualmente morremos a cada dia.

Ainda não passei pela ponte, mas um pedaço significativo da minha credibilidade na raça humana foi atirada de lá, e com certeza, não sobreviveu.

Epílogo

Quando for minha vez de encontrar o Criador quero que na minha mão ao invés de um terço ou flores coloque-se a coleira de Mega, que está devidamente guardada para isso. Quero levá-la para ela. Quero novamente colocá-la em seu pescoço, porque uma coleira não é nada sem um cachorro. E um Homem não é nada sem o amor de um cão.


Para Rosa Zarella,
por seu amor incondicional aos animais em perigo
e a quem eu admiro ainda mais.
E para Dora Maar, que hoje tem casa, comida e coleira.

25/06/2009

São João





Frio.
Fogueira.
Fogos.
Comida.
Pai e Mãe.

Pena que é apenas uma vez por ano.
Pena nada!
Se fosse todo mês, eu não passaria mais pela porta e só andaria do compartimento de carga dos aviões.

21/06/2009

Vrummm, vrummm, vruuummmmmmmmm


Quem disse que semana de prova é só livros, cadernos e anotações. Semana de prova é semana de aventuras também.

Vocês que me conhecem mais de perto, sabem que eu sou extremamente cuidadosa, diria mesmo medrosa, mas Daniel, my brother, precisava de uma ajuda urgente e devido a esse necessidade de semana de prova topei vir com ele da faculdade à minha casa - mais ou menos uns 15 kilometros. Até aí nada demais, pois faço esse caminho todos os dias. O que você não sabe, ainda, é que eu fiz esse percurso de moto.

Saímos da faculdade umas 20h e seguimos para a Agamenon Magalhães, justo eu que tenho horror de andar de carro por aquela via com medo de sua famosa violência, seja por causa dos roubos, seja por causa dos acidentes, em sua maioria com motos. Mas Daniel precisava de ajuda, então vamos. Meus dedos batucavam nas minhas pernas por todos os milímetros que percorremos, sinal tácito do meu desconforto. Atravessamos os viadutos, a ponte do Pina e na minha cabeça só pensava "vou acabar virando um processo na mesa de Chatarina. Flavinho vai ser o beneficiário do meu DPVAT".

Daniel foi um lorde, não fez ultrapassagens incorretas, não costurou, não xingou os demais motoristas. Fui relaxando e quando vi, estava em casa, sã e salva. Subimos peguei o trabalho e vi pela janela Daniel seguir de volta para casa.

Essa semana ao chegar na faculdade, encontrei-o com um enorme sorriso no rosto. O trabalho o havia ajudado a passar. Aquele homem do tamanho de uma porta, estava feliz como um garoto no dia de seu aniversário. Diante da alegria de Daniel pensei: "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena." E o que é uma voltinha de moto mediante a felicidade de um amigo?!

Para Daniel, my brother, que vai embora para o interior e vai deixar um vazio tão grande quanto ele.

Adeus Bicho-Papão.



Foi duro.
Foi difícil.
Mas como tudo na vida, passou.
Assim acabou as semanas de reinado do bicho-papão.
Agora só em agosto.
Mais uma vez, sobrevivi.

31/05/2009

O bicho papão da semana de provas vai te pegar.

Madrugada de sexta-feira, 29 de maio de 2009.

No quarto escuro Flávio ouve, em alto e bom som, o seguinte trecho de um diálogo, que eu travava com alguém em meus sonhos:

"- Não! Isso é processual. Nem coloque na sua cabeça."

Será que a semana de provas chegou, hem?

21/05/2009

Porque a beleza está nos olhos de quem vê.



A vida tem caminhos estranhos para nos levar onde devemos ir. Por vezes rebelamo-nos, arranjamos atalhos, sentamos a beira da estrada e fingimos que nada mais vai acontecer. Mas o destino não se importa e sorrateiramente nos guia, como um cão pastor, sem que percebamos para onde realmente estamos indo. Quando vemos, atravessamos o caminho, seja pela estrada, seja pelo acostamento, seja nos arrastando ou caminhando de boa vontade, mas sempre vamos encontrar o que nos é devido.

Essa breve introdução é para falar do filme Departures, Partidas em português, produção japonesa vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro, não que ganhar o Oscar seja a coisa mais importante sobre essa película, mas, infelizmente, acho que ele só se tornará conhecido devido essa nova etiqueta: ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Posso garantir que ele é muito mais do que isso.

O filme se passa em uma cidade do interior do Japão. O jovem Daigo Kobayashi estava realizando seu sonho de ser violoncelista de uma orquestra sinfônica em Tóquio, até que um dia, assim como por encanto, a orquestra foi desfeita e ele se viu diante da necessidade de voltar para a sua cidade natal, a tal do interior. Sem emprego, ele começa a procurar no classificados uma nova ocupação. Eis que surge uma vaga em uma agência de viagens. Ele segue para a entrevista e então começa a aventura.

O personagem arranja um emprego em uma agência de acondicionamento e não de viagens. Acondicionamento? Sim! O trabalho dele é acondicionar os mortos em seus caixões, mas antes deverá fazer a cerimônia de limpeza dos corpos e deixá-los o mais belos possível para que essa seja a última imagem que a família tenha deles, antes de sua derradeira partida. Entenda, trata-se de uma tradição japonesa, por isso mesmo, acho que a maioria dos que assiste se choca com o que vê. Mas com o desenrolar do filme, você começa a ver a beleza daquele ritual feito de silêncio, respeito e saudade. Como tudo que é oriental, cada movimento tem sua função e uma homenagem, ao morto e a sua família. Belo, muito belo.

Mas o que isso tem a ver com a introdução? O jovem Daigo deve percorrer um caminho tortuoso para acertar as contas com os fantasmas do seu passado e finalmente seguir em paz para o seu futuro. Os conflitos do mundo exterior, da intolerância social à função que ele abraçou sem muita vontade inicialmente , também nos deixa aprisionados ao filme. Atenção especial ao chefe de Daigo, o Senhor Sasaki. Ele é prático, seco, mas sem perder o olhar solidário diante da dor de quem sofre.

Tudo é uma questão de como estamos dispostos a ver os fatos da vida e com a morte não poderia ser diferente. Sua presença real e absoluta foi vista de uma forma tão bela, pelo diretor desta obra, que nos faz pensar que realmente trata-se apenas de uma partida para um lugar muito melhor.